segunda-feira, 11 de abril de 2011

One Take Tony

Maria Flor e Anthony Hopkins em filmagem de "360"

Anthony Hopkins havia acabado de chegar em Londres e me disseram que ele estava em seu trailer experimentando figurino. Então, saí do set para ir dar um ‘alô’ e fingir que entendo alguma coisa de roupas. Depois da prova, engatamos uma conversa até baterem na porta. Fui abrí-la e era o Jude Law, com quem filmaria a primeira cena daquele dia, que apareceu para dar um alô também. Jude viu o Anthony no fundo do trailer e entrou direto para abraçá-lo, passando por mim sem me enxergar. Trocaram algumas palavras e, só então, o Tony (como todos o chamam aqui) fez um gesto educado, movimentando-se para me colocar na roda. Foi só aí que o Jude, de fato, me viu e consertou a situação com um charme inglês bem humorado. Conto essa bobagem só para revelar o quão forte é a presença deste Tony. Na tela, assim como no trailer, os olhos dos espectadores tendem a ir direto para ele e tudo mais desaparece. Num intervalo de filmagem, cheguei a perguntar de onde viria este tipo de carisma? Sua teoria é que a atração que exerce vem de sua insegurança ou desconforto em estar diante da câmera. Há sempre alguma fragilidade nesta tensão, ele diz, e é daí que pode vir o interesse para quem o vê. Contou que Peter O'Toole, também um desajeitado segundo o próprio julgamento, defendia esta mesma tese a respeito dos benefícios do desconforto que sentia ao atuar.

Fico imaginando o quão difícil deve ser contracenar com alguém carismático assim. Em “360”, quase todas as cenas de Anthony Hopkins são com a Maria Flor, que tem, portanto, um difícil trabalho pela frente. Talvez, por saber disso, ela estava ansiosa para conhecê-lo. Dois dias antes de rodarmos, nos reunimos para falarmos sobre as cenas que faríamos juntos. Não seria um ensaio, (parece que os atores deste filme não são muito chegados a ensaios, eu que me adapte), mas apenas uma conversa, com uma rápida leitura das falas, feita numa mesa mesmo, só para checarmos se nós três estávamos fazendo o mesmo filme. 

Passamos ligeiros por todos os diálogos até chegarmos na última cena, a única que ele fará sem a Flor mas aparentemente, a que mais lhe interessa. É uma cena numa reunião do AA. Só ao falarmos sobre ela compreendi o enorme interesse de Hopkins em interpretar este papel. No primeiro dia que o encontrei ele já havia dito que em “360” não gostaria de interpretar ninguém. Queria ser ele mesmo. Seu personagem não representa grandes desafios para um ator com a sua experiência, e seu cachê em “360”, imagino eu, está abaixo dos seus parâmetros normais. Então foi justamente para poder contar um lado da sua própria história que ele entrou tão entusiasmado neste filme. 

Tony, assim como seu personagem, não bebe ha 35 anos, mas conhece bem este universo e pediu licença para acrescentar no seu texto uma história pessoal, e transformadora, que viveu ha décadas atrás. Criou a fala e repetiu, para mim e para a Flor, algumas vezes, de maneira diferente, até acharmos o lugar certo onde deveria entrar. O parágrafo criado, acabou sendo uma espécie de chave que faz muito sentido para quase todos os outros personagens deste filme (e custará 12 reais, em média, para quem quiser saber qual é). De qualquer maneira, ele contou aquela história com tamanha verdade, que ao sair da sala a Flor não segurou algumas lágrimas. Ao filmarmos a mesma cena na semana passada, ele se deixou levar, e com a câmera rodando, acrescentou ainda outras tantas histórias ligadas ao tema. Criou assim um problema para o Daniel, montador, que vai ter problemas para saber o que cortar. 

No final, a sorte será nossa, dos espectadores, que nos sentiremos tocados ao vê-lo na tela. Me coloco do lado dos espectadores aqui, pois nesta cena foi realmente o que fiz. Não fiz quase nada, além de dizer 'ação’ e ‘corta’, e assistir o que ele fazia. Meu único mérito foi perceber logo que o melhor que eu poderia fazer era tentar não atrapalhar. Neste dia, o Peter Morgan, roteirista, estava no set e o ajudou à achar as passagens do seu texto pessoal para o texto que estava escrito no roteiro, o que ele fez com arte. Ia do texto improvisado do Tony para o texto escrito do John como um ‘Chick Corea’ que volta ao tema depois de um solo.

E por falar no ‘Chick Corea’, num outro intervalo de filmagem, Hopkins me contou que é bom pianista e compositor, escreve para orquestra. Me mostrou algumas músicas que fez para um filme que dirigiu então, num impulso, sem consultar os produtores, convidei-o para compor a trilha para o seu personagem no filme. Para a minha surpresa ele aceitou imediatamente e já combinamos de como faremos todo o processo de mandar a montagem, receber provas, etc. No dia seguinte ao seu último dia de filmagem, ele pediu para arrumarem um estúdio aqui em Londres e gravou duas peças tocando violão para usarmos como referência na montagem.  

O rapaz está começando, temos que dar oportunidades para os novos talentos,
 justifiquei para o Andrew, nosso produtor.

(One Take Tony foi o apelido que ganhou por sempre acertar o tom do seu personagem na  primeira tomada)

5 comentários:

  1. A cada postagem fico mais curioso para ver o resultado disso tudo... "360" promete!

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  2. Anthony Hopkins - Que honra!!! Admiro muito sua carreira.
    Quem quiser saber mais...

    http://www.youtube.com/watch?v=t5Jz_hfaxDE&feature=related

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  3. Anthony Hopkins, pessoa brilhante. Ator fantástico.

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  4. Fernando, tou esperando o número da conta e a agência bancária pra depositar aqueles doze reais, fechado?

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